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Capítulo 4 – Gay em ambiente escolar

Olá, caro ouvinte, olá, caro leitor, estava um pouco sumido, estava fazendo também outros novos projetos, mas o nosso diário de um professor militante ah, esse não pode parar, claro que não! Hoje, contarei para vocês sobre três ciclos da minha vida sobre orientação sexual (sou homossexual) e sobre o papel da escola em minha […]

18 maio 2024, 13:52

Olá, caro ouvinte, olá, caro leitor, estava um pouco sumido, estava fazendo também outros novos projetos, mas o nosso diário de um professor militante ah, esse não pode parar, claro que não!

Hoje, contarei para vocês sobre três ciclos da minha vida sobre orientação sexual (sou homossexual) e sobre o papel da escola em minha vida.
Começo a narrar sobre o ciclo da descoberta da minha orientação sexual. Lembro que minha descoberta enquanto gay se remete à época da pré-escola, lembro que na pré-escola tinha um professor de educação física e eu queria a todo momento vê-lo durante as aulas ou nem que seja passando em frente da minha sala de aula, meus olhos brilhavam só dele aparecer na frente da minha sala de aula, não tinha entendimento do que era isso, mas, aquele professor fisgava meu interesse, isso já era meu interior apontando para mim mesmo que eu gostava de pessoa do mesmo sexo.

No primário (que são chamados hoje de anos iniciais do ensino fundamental), exatamente na segunda série, conheci um coleguinha que aqui irei chamá-lo de Líbio, o Líbio era um garoto bem para frente de seu tempo, muitos o chamavam de “viado”, outros de “viadinho”, etc… ele foi meu grande amiguinho, lembro de nós dois interpretando o papel de dois atores: Babalu e Raí (da novela 4 por 4), éramos motivos de piadas, infelizmente o Líbio acabou saindo da escola e a partir daí, os demais anos do primário foram se tornando longos, tristes e difíceis, eu apanhava todos os dias dos meus colegas e devido a isso, fui criando uma casca dura para enfrentar o preconceito quanto à minha orientação sexual, comecei a frequentar a igreja e eu não me aceitava como eu era.

Durante minha infância e adolescência, fui tentando disfarçar porque eu mesmo não aceitava minha orientação sexual, arrumava uma namorada aqui, outra ali, dava apenas selinho e assim fui construindo uma imagem de “heterossexual”.
Apenas na universidade consegui me soltar e ser quem eu sou, meu primeiro relacionamento de fato, eu já tinha por volta dos 20 anos.

No meu primeiro ciclo como professor, cheguei bem assumido na escola, logo estava em um grupo de professores com lésbicas, bi e libertários.
Enquanto professor, tive um espaço bem acolhedor entre os colegas, na época, nunca comentei minha sexualidade com os estudantes, pois ali no primeiro ciclo o preconceito ainda dominava. Tinha muita dó de estudantes LGBTs, muitos acabavam desistindo da escola, mesmo nós professores preparando formações, garantindo a inclusão, muitos estudantes LGBTs desistiram de estudar devido à pressão e preconceito da sociedade.
Ainda no meu primeiro ciclo de professor, eu utilizava muito as redes sociais, até então, era a melhor forma de conhecer outros gays. Nesse período conheci um professor gay e acabamos ficando amigos. Esse professor, sofria muita homofobia na escola que trabalhava e por fim acabou cometendo suicídio. Eu fiquei devastado e questionei muito o sistema educacional que levava LGBT ao suicídio, vi a necessidade de construir um grupo de professores LGBTs, onde todos nesse grupo teriam suporte mútuos. Começamos a fazer políticas afirmativas para a escola ser um espaço de inclusão.
Ainda neste ciclo aconteceu algo bom, eu reencontrei o Líbio, agora como professor de filosofia e ele não mudou nada de sua essência como pessoa.

Agora, nesse novo ciclo como professor, tudo está muito diferente, os estudantes LGBTs estão lutando cada vez mais pelo seu espaço, as escolas estão mais inclusivas, lógico que, ainda estamos MUITO longe do ideal, mas avançou bastante a militância nessa área. Essa semana mesmo, conversando com uma amiga, ela estava revoltada com um professor de sua escola que se recusa a chamar as alunas trans pelo nome social, mas, a esses retrógrados podemos hoje combater de frente, sem medo! Hoje conheço professores, diretoras trans, algo inimaginável até alguns anos atrás.
Não podemos sossegar, pois a LGBTfobia hoje está mascarada e temos sempre que estar atentos.
Esse relato é de nosso diário, onde é um espaço para trocar experiências com vocês, leitores e caros ouvintes, sobre a vida cotidiana de um professor na rede pública.