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A Intersecção Invisível: Gênero, Deficiência e a Multiplicação das Violências É importante lembrar que estamos falando de um conjunto muito diverso de mulheres. Mulheres não são um grupo homogêneo. São corpos diferentes, vivências diferentes, histórias e realidades muito distintas. E isso significa que, ao falar sobre os desafios enfrentados pelas mulheres, precisamos considerar também as […]

18 maio 2026, 15:56 Tempo de leitura: 8 minutos, 56 segundos
A Intersecção Invisível: Gênero, Deficiência e a Multiplicação das Violências

É importante lembrar que estamos falando de um conjunto muito diverso de mulheres. Mulheres não são um grupo homogêneo. São corpos diferentes, vivências diferentes, histórias e realidades muito distintas. E isso significa que, ao falar sobre os desafios enfrentados pelas mulheres, precisamos considerar também as sobreposições de vulnerabilidades: mulheres pobres, mulheres pretas, pardas e indígenas, mulheres periféricas, lésbicas e bissexuais, mulheres trans e travestis, e mulheres com deficiência. Cada uma dessas experiências combina fatores próprios de desigualdade, e isso muda profundamente a forma como cada mulher é tratada pela sociedade.

As desigualdades de gênero já existem. Mas, quando cruzadas com raça, classe, sexualidade ou deficiência, elas se tornam ainda mais profundas. A violência também cresce: determinados grupos de mulheres sofrem mais, sofrem de maneiras diferentes e encontram muito menos proteção social. A sociedade naturaliza certas violências dependendo de quem é a vítima. Uma mulher branca e heterossexual, por exemplo, costuma receber um tipo de tratamento completamente distinto do que recebe uma mulher negra e trans. Isso aparece nas oportunidades de acesso à educação, cultura, trabalho, lazer, convivência e até no reconhecimento de sua dignidade.


O Peso da Tutela e o Estereótipo da Incapacidade

Entre todos esses grupos, as mulheres com deficiência enfrentam desigualdades que se amplificam em praticamente todos os aspectos da vida. Desde a infância essas meninas costumam ser tratadas de forma tutelada pela família, pela escola e pelo Estado. Elas são educadas com menos incentivo à autonomia, mesmo quando suas deficiências não exigiriam tamanha dependência.

Isso acontece porque a sociedade sem deficiência ainda enxerga a pessoa com deficiência a partir de estereótipos: alguém que não consegue, que precisa ser cuidada, que é incapaz de decidir sobre si. E, quando essa visão é aplicada a mulheres, ela se combina com a lógica patriarcal de controle sobre o corpo feminino — resultando em um grau de tutela e vigilância ainda maior.

Essa combinação faz com que as mulheres com deficiência tenham mais dificuldades de acesso a espaços de convivência, a escolhas profissionais, a trajetórias escolares e a ambientes culturais. Além disso, elas também enfrentam barreiras que podem ser físicas, comunicacionais, metodológicas ou, simplesmente, atitudes preconcuituosas. As escolas, muitas vezes, não oferecem acessibilidade suficiente para garantir uma educação igualitária, e isso reforça um ciclo de exclusão.

Quando olhamos para a vida adulta dessas mulheres, vemos que a falta de autonomia aparece em decisões grandes e pequenas: onde elas podem ir, com quem podem estar, o que podem fazer, que tipo de vida podem construir. Em muitos casos, esse controle está nas mãos da família ou de um parceiro, reforçado por uma cultura que ainda entende os homens como responsáveis pelas mulheres. E, no caso das mulheres com deficiência, essa lógica se intensifica de forma extrema.

Isso vale para mulheres com deficiência física, mulheres surdas ou cegas, mulheres com deficiências sensoriais parciais, mulheres com deficiência intelectual, mulheres autistas — com ou sem deficiência intelectual — e para aquelas que adquiriram uma deficiência ao longo da vida. Cada deficiência traz desafios específicos, e cada tipo de deficiência pode gerar formas particulares de violência.


A Infantilização como Porta de Entrada para o Abuso

Mulheres com deficiência intelectual, mulheres autistas e mulheres usuárias de cadeira de rodas, por exemplo, são frequentemente infantilizadas. A sociedade muitas vezes não reconhece nelas a condição plena de adultas. Elas enfrentam limites rígidos impostos por outras pessoas, que decidem o que podem ou não fazer, como se não fossem capazes de escolhas próprias. Isso abre margem para inúmeras formas de abuso.

E quando falamos de violência sexual, as estatísticas são alarmantes. Mulheres com deficiência sofrem violência sexual em índices muito mais altos do que mulheres sem deficiência. A combinação entre vulnerabilidade social, falta de autonomia, dependência forçada, isolamento e infantilização cria um cenário em que abusadores encontram menos barreiras e, muitas vezes, contam com a conivência do silêncio.

Para uma mulher com deficiência física, por exemplo, a limitação corporal pode dificultar ações básicas de defesa. Isso torna essas mulheres mais expostas não só a agressões físicas, mas também a abusos verbais e psicológicos. E, quando tentam denunciar, frequentemente enfrentam um processo de invalidação: são tratadas como se fossem incapazes de entender o que aconteceu. Muitas vezes alguém diz que ela “não entendeu”, que “inventou”, ou que “interpretou errado”. A sociedade infantiliza essas mulheres a tal ponto que, mesmo quando não existe deficiência intelectual, elas são tratadas como se houvesse.

Isso vale mesmo quando a mulher tem plena autonomia, consciência clara do que sofreu, capacidade de relatar, explicar e descrever os fatos. Ainda assim, muitas vezes ela é desacreditada. E essa invalidação é uma violência que se soma à violência original, porque retira a credibilidade da mulher sobre a própria vida e sobre o próprio corpo.


Barreiras de Comunicação e a Crueldade dos Agressores

Além das barreiras físicas, há barreiras de comunicação que agravam ainda mais esse cenário.

Mulheres surdas: frequentemente são expostas a situações em que a ausência de uma comunicação acessível é usada contra elas. O agressor pode alegar que “ela não disse não”, que “ela não entendeu”, que “consentiu”. Mulheres cegas: enfrentam dificuldades óbvias de identificar quem as agrediu, o que impacta a denúncia. Mulheres autistas: podem ter dificuldade de interpretar intenções, tons de voz, nuances de comportamento social e sinais sutis que diferenciam flerte de manipulação ou de uma situação de risco. Elas não sofrem porque “não sabem o que é sexo” ou “não entendem o que é violência”, mas porque a comunicação social — gestos, entonações, expressões, pistas implícitas — é justamente uma área em que elas podem ter diferenças reais de compreensão.

E agressores sabem disso. Eles percebem essas vulnerabilidades comunicacionais e se aproveitam deliberadamente delas. Exploram dúvidas, confusões, limitações e inseguranças. Por isso, mulheres com deficiência são não apenas o grupo que mais sofre violência sexual, mas também o que mais sofre violência psicológica, familiar, institucional e social.


A Violência que Gera Deficiência

Existe ainda outro lado dessa conversa: o fato de que muitas mulheres se tornam mulheres com deficiência justamente por causa da violência. Violência doméstica, agressões graves, tentativas de femicídio e outras formas extremas de violência de gênero podem causar perda de visão, paralisia, amputação, danos neurológicos e tantas outras sequelas que resultam em deficiência permanente.

A história de Maria da Penha é um dos casos mais conhecidos, mas está longe de ser uma exceção. Há inúmeras mulheres que adquirem uma deficiência como consequência direta da violência sofrida dentro de casa, na rua, no trabalho, ou por parte de parceiros, familiares ou conhecidos.


Controle Corporal e a Lógica Eugenista

Há ainda um terceiro ponto muito importante quando falamos sobre as violências que atingem mulheres com deficiência: o direito ao próprio corpo. Todas as mulheres, de maneira geral, já convivem com interferências externas sobre suas escolhas reprodutivas — parir ou não parir, engravidar ou não engravidar, usar métodos contraceptivos ou não, recorrer ou não ao aborto. Essas decisões, que deveriam ser exclusivamente da mulher, continuam sendo atravessadas por estruturas patriarcais que tentam controlar sua vida sexual e reprodutiva.

Mas, quando se trata de mulheres com deficiência, esse controle é ainda mais intenso. Além do patriarcado, existe um elemento adicional extremamente violento: a lógica eugenista. É a ideia — explícita ou implícita — de que as deficiências não devem “se multiplicar” na sociedade. Essa visão de mundo, que valoriza um corpo padrão e tenta eliminar corporalidades que fogem desse ideal, faz com que a autonomia reprodutiva de mulheres com deficiência seja colocada em xeque de forma ainda mais rígida.

Por causa desse pensamento eugenista, muitas vezes existe maior aceitação social e institucional do aborto quando a mulher é uma mulher com deficiência — não no sentido de garantir seu direito de escolha, mas no sentido de negar-lhe esse direito, impondo a decisão de interromper a gestação para evitar que sua deficiência “se transmita”. Ou seja, o que deveria ser um direito reprodutivo individual se transforma em instrumento de controle sobre seu corpo, sua vida e seu futuro.

Além disso, a infantilização dessas mulheres faz com que muitas pessoas sequer considerem a possibilidade de que mulheres com deficiência possam ter desejo, se relacionar, engravidar ou desejar ter filhos. E, quando engravidam, frequentemente são alvo de intervenções familiares e estatais que tentam impedir a continuidade da gestação. A justificativa costuma vir fantasiada de “proteção”: supor que essa mulher não teria condições de ser mãe, de cuidar de uma criança, de exercer responsabilidades parentais. Essa presunção de incapacidade leva, na prática, a uma retirada concreta do direito de constituir família — um direito universal que, para mulheres com deficiência, acaba sendo negociado, bloqueado ou simplesmente negado.


Uma Via de Mão Dupla

Tudo isso mostra como a combinação entre gênero e deficiência aprofunda desigualdades já existentes. O impacto sobre a autonomia corporal de mulheres com deficiência é significativo e revela um campo de violência que muitas vezes passa invisível: o de decidir sobre seu corpo, sua maternidade, seu desejo e sua própria vida.

Por tudo isso, não é possível falar de violência contra a mulher sem falar das mulheres com deficiência. A relação entre deficiência e violência é uma via de mão dupla: muitas mulheres tornam-se pessoas com deficiência em razão de uma violência, e muitas mulheres sofrem violência justamente porque têm uma deficiência. São vulnerabilidades que se alimentam mutuamente, e que só podem ser enfrentadas quando olhamos para essas experiências de forma honesta, profunda e comprometida.